Um estudo com participação de pesquisadores do A.C.Camargo Cancer Center reuniu dados de mais de 2.400 pacientes para avaliar uma estratégia que vem ganhando espaço nas pesquisas sobre o tratamento do carcinoma hepatocelular irressecável: a combinação da quimioembolização transarterial, conhecida como TACE, com a imunoterapia.
Publicado na ESMO Gastrointestinal Oncology, periódico da Sociedade Europeia de Oncologia Clínica, o trabalho teve entre seus autores o Dr. Ângelo Brito, Oncologista e Coordenador Médico da Unidade de Pesquisa Clínica do A.C.Camargo Cancer Center.
O carcinoma hepatocelular é o tipo mais comum de câncer primário do fígado. Em pacientes com doença irressecável, ou seja, quando a retirada cirúrgica do tumor não é uma opção, diferentes estratégias podem ser consideradas de acordo com as características da doença e do paciente.
Entre elas está a TACE, procedimento utilizado especialmente em pacientes com carcinoma hepatocelular em estágio intermediário. A técnica permite administrar o tratamento diretamente nos vasos sanguíneos que alimentam o tumor e, ao mesmo tempo, bloquear seu suprimento de sangue.
Apesar de seu papel no tratamento, a progressão da doença após a TACE ainda representa um desafio. “Queríamos responder a uma importante pergunta: será que a combinação da quimioembolização, conhecida como TACE, com a imunoterapia traz benefícios em comparação aos pacientes que fazem apenas a quimioembolização?”, explica o Dr. Ângelo.
TACE com imunoterapia traz benefícios em comparação à quimioembolização isolada?
Para buscar essa resposta, os pesquisadores realizaram uma metanálise, método que reúne e analisa os resultados de diferentes estudos sobre uma mesma questão científica. Foram incluídos seis ensaios clínicos randomizados: EMERALD-1, EMERALD-3, Jia et al., LEAP-012, TALENTACE e CARES-005, que, juntos, reuniram dados de 2.439 pacientes com carcinoma hepatocelular irressecável.
A análise comparou pacientes tratados com TACE associada a inibidores de checkpoint imunológico com aqueles submetidos à TACE sem a associação à imunoterapia. Os pesquisadores avaliaram desfechos como sobrevida livre de progressão, taxa de resposta objetiva, sobrevida global e segurança dos tratamentos.
Os resultados mostraram benefício da estratégia combinada em dois dos principais desfechos avaliados. “A combinação aumentou a chance de resposta ao tratamento e manteve a doença controlada por mais tempo”, destaca o Dr. Ângelo.
O que a nova metanálise revela sobre o tratamento do câncer de fígado?
Em relação à sobrevida livre de progressão, indicador que considera o período em que o paciente permanece vivo sem que a doença apresente progressão, a combinação de TACE e imunoterapia mostrou resultado superior à TACE isolada.
A análise encontrou um hazard ratio (HR) de 0,63 para esse desfecho, o que significa uma redução relativa de 37% no risco de progressão da doença ou morte durante o período analisado nos estudos.
A taxa de resposta objetiva também foi maior com o tratamento combinado. Esse indicador avalia a proporção de pacientes que apresentaram redução do tumor de acordo com os critérios utilizados nos estudos. A associação obteve um risco relativo de 1,45, indicando uma taxa de resposta 45% maior em relação ao grupo tratado apenas com TACE.
Além disso, os pesquisadores avaliaram a sobrevida global, em que foi observado um resultado favorável à combinação, com HR de 0,85, “mas esses dados ainda precisam de um acompanhamento um pouco maior para termos uma resposta mais definitiva”, ressalta o Dr. Ângelo.
Isso significa que, embora os primeiros resultados sejam favoráveis, é necessário acompanhar os pacientes por mais tempo para compreender com maior segurança o impacto da estratégia combinada na sobrevida global.
Benefícios precisam ser avaliados junto aos efeitos adversos
Outro ponto importante que surgiu com a interpretação dos resultados foi a maior toxicidade apresentada a partir da combinação dos tratamentos. “Houve também um aumento dos efeitos colaterais. Isso mostra que não é a melhor opção para todos os pacientes e reforça a importância da individualização da decisão de tratamento”, explica o Dr. Ângelo.
O resultado evidencia que uma estratégia com maior eficácia em determinados desfechos não significa que deva ser aplicada da mesma maneira a todos. Na oncologia, fatores relacionados ao tumor, às condições clínicas do paciente, aos tratamentos anteriores e à tolerância esperada à terapia fazem parte da tomada de decisão.
Qual é a importância desse estudo?
Ao reunir os resultados de seis ensaios clínicos randomizados, a metanálise permite analisar de forma conjunta as evidências disponíveis sobre a associação entre TACE e inibidores de checkpoint imunológico no carcinoma hepatocelular irressecável.
Os achados reforçam o potencial dessa combinação principalmente para aumentar a resposta ao tratamento e prolongar o período de controle da doença. Ao mesmo tempo, a maior ocorrência de efeitos adversos e a necessidade de dados mais maduros sobre sobrevida global mostram que as respostas precisam ser interpretadas considerando benefícios e riscos.
Para o Dr. Ângelo, mesmo com a perspectiva promissora, não podemos substituir a avaliação individual de cada caso: “Como acontece com boa parte dos tratamentos em oncologia, essa decisão não depende apenas do estudo. Ela deve levar em consideração as características do paciente e ser discutida por uma equipe multidisciplinar, como fazemos aqui no A.C.Camargo Cancer Center.”
A publicação também fortalece o papel da pesquisa na avaliação contínua de novas estratégias para o tratamento do câncer. Ao produzir e avaliar evidências científicas, pesquisadores contribuem para compreender quais abordagens apresentam melhores resultados e para quais pacientes elas podem ser mais adequadas.
Confira o estudo completo no site da ESMO Gastrointestinal Oncology.
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